Quarta-feira, 4 de Março de 2009

obrigada, Adélia

pela segunda vez. e nunca é demais. a gente esquece...

"(...) o mal está em querer compreender. o maior absurdo é: existo. o resto segue. parece que não há mais perigo de me perturbar de novo, porque a compreensão é impossível e toda explicação alcança um ponto onde os diferenciais se misturam numa treva tão grande e ininteligível como a grande luz e sobra apenas e de novo: existo (...)".

Adélia Prado

é

um dia ótimo pode acabar mal, e vice-versa. engraçado como a gente nunca sabe. sempre surpresa. alegria e tristeza. dúvida e certeza. eu nunca sei. e nem sei se queria saber. chuva no asfalto quente. fumacinhas na minha cabeça.

querido diário

depois de anos, hoje voltei a nadar. e até que foi fácil. o mínimo: mil metros. na piscina do Cepe. coisa boa. o barulho da água, das bolhas, da respiração. melhor meditação que existe. depois alongar e secar no solzinho...

e que saudade absurda do passado. e que vontade inútil de adivinhar o futuro.

a vida é difícil. definitivamente não sei o que fazer.

mas o sol brilha no céu azul, é verão em São Paulo, o calor esquenta a alma, a endorfina corre nas veias...

a vida é bela.

Domingo, 15 de Fevereiro de 2009

um domingo qualquer

fim do horário de verão. uma hora a mais de sono. Ana na casa da vovó. café da manhã na padaria ao meio-dia. salada de fruta. café com leite. jornal. televisão. o garçom aumenta o volume, querendo dizer "falem baixo!". assunto: futebol. Zico ou Zidane, qual é o melhor? imagens antigas de Zico jogando. comoção na padoca: "jogava pra caralho!", "que golaço", "lembra disso?", "nooossa!"... cada um tem algo a dizer. acho bonitinha essa comoção. sorrio por dentro. uma linda menininha de um ano passeia ao redor das mesas. eu observo. ela vem andando na minha direção, apontando e dizendo baixinho "mamã, mamã, mamã". o pai meio sem graça vem pegá-la, ri e corrige: "não é a mamãe, não...". não é, mas é, né... sorrio por dentro e por fora. leio por acaso no jornal uma pequena entrevista com Luiz Tatit. como pude sempre saber dele e nunca antes ter sabido direito sobre sua teoria semiótica? na hora de pagar a conta não resisto aos suspiros caseiros. o gosto do suspiro é a lembrança da minha avó. as perguntas do fim-de-semana são as mesmas de ontem: onde estão e o que fazem as pessoas da minha idade? que pedaço da história eu perdi? crise de identidade ao contrário... é referente?! e a chuva volta a cair.

Quinta-feira, 5 de Fevereiro de 2009

6

a única maneira de saber ao certo era vivendo, e ela precisava saber. muito. era chegada a hora. não era proibido, mas era revolucionário (pelo menos pro âmbito da sua vida, naquele momento, era revolução armada, guerrilha, anarquia...). o cheiro de flores parou no tempo. era o mesmo de sempre, que entrava pela janela quando o vento batia de um jeito. ela se via aqui e lá. metade, metade. mas a verdade é que já estava lá há muito tempo. e lá, agora, era aqui. e aqui, agora, era respirar fundo. e viver. no primeiro dia em que acordou sozinha, às seis da manhã, a campanhia tocou. pra sempre, pra nunca mais... o cheiro de frutas tomou conta dele, dela, da casa, da cama, da vida. era tão de verdade o cheiro. era tão de verdade a vida.

[continua...]

terra e ar


Quarta-feira, 4 de Fevereiro de 2009

acontece

17 de abril do ano passado, na esquina mais surpreendente da cidade...

Terça-feira, 3 de Fevereiro de 2009

freio

explicar o inexplicável. evitar o inevitável. ponderar o imponderável.
não dá. não tente. não queira.

concertar o desconcerto?
já foi. já fez. tá feito.

voltar até o primeiro instante pra fazer diferente. ou igual. ou melhor. ou talvez...
falar menos. esperar mais.

impulso. impulso. impulso.

menina, não adianta, não adiante:
você não aprende mesmo.
você não tem o menor controle sobre isso.

5

passaram-se cinco dias. tempo suficiente pros pensamentos entrarem em redemoinho e voltarem ao ponto inicial umas trezentas vezes. não, no fim as histórias inventadas não começam nem terminam. mas ela era viciada em inventá-las. inofensivo. o mais perigoso mesmo era vivê-las. corda bamba: de um lado o real, de outro a invenção, em cima o céu, embaixo o novo. ela não tinha medo, parece. às vezes se vestia linda de equilibrista, e ia. o frio na barriga também era um vício.

[continua...]

balanços

chego cada vez mais perto dos trinta e é estranho... mas sigo achando ainda mais estranho meus irmãos e tantos amigos chegando aos quarenta. talvez eles pensem o mesmo de mim.

aprendo cada dia mais com a minha filha, e é difícil de acreditar que sou eu quem devo ensiná-la sobre a vida. mas tento. algumas vezes com esforço, porque tento fazê-la entender muitas coisas que nem eu mesma entendi, e nem sei se vou.

simpatizo bastante com os bichos, e hoje em dia até mesmo com alguns insetos, mas ainda prefiro as pessoas, apesar de não conseguir compreender muito bem como o amor liberta mas prende, como a convivência amadurece mas irrita, como a intimidade aprofunda mas tira um pouco do encanto... pessoas, pessoas... complicadas... é, mas ainda prefiro o ser humano aos outros bichos.

amigos e família são quase a mesma coisa. e são um laboratório incrível pra exercitar a aceitação das diferenças... e me encanta cada vez mais descobrir as diferenças. e cada vez mais acho mais estranha a falta delas. e acho difícil confiar em alguém muito igual. por isso meus amigos são os seres mais anormais e encantadores do mundo. e minha família é muito igual a mim, mas diferente o suficiente pra me encantar.

aos poucos tenho conseguido lidar melhor com limites, obstáculos... já consigo abrir mão da minha liberdade, sem sofrer muito. ao mesmo tempo em que procuro não perdê-la nem por um instante. é porque percebo que ser livre do jeito que eu queria não existe, e nem devia. então aceito ser livre assim.

procuro ser o menos preconceituosa possível com tudo, e estar o mais preparada possível pra toda e qualquer sorte de estranheza que me apareça pela frente... mas confesso que ainda me custa aceitar quem não se comove com bebês, quem não gosta de crianças, quem não toma café, quem não ouve Chico nem Madonna, quem não freqüenta um buteco de estimação, quem não enlouquece de vez em quando...

não planejo quase nada e gosto muito disso. minha vida me atropela e me divirto a cada atropelo, mesmo que sofra, chore, me desespere, me descabele... me divirto depois, vendo de longe, dando risada. nada do que vivo foi planejado ou imaginado algum dia por mim, nem de maneira parecida. sempre é uma surpresa e é assim que eu quero.

cada dia aprendo um pouco e sei menos. cada dia sei menos o que quero e o que sei. cada dia acho que amadureço de um lado e me deparo com minha imaturidade de outro. me odeio e me amo.

e agradeço. é um alívio muito enorme enxergar minha vida assim, e achar tudo isso a coisa mais normal do mundo...