terça-feira, 17 de julho de 2007

zoológico: um mico de domingo...

...ou mais uma da série "trapalhadas de uma mãe culpada"

comecemos então pela culpa. sim, sempre ela. dessa vez eu me sentia culpada porque sábado o Carlão foi andar de bike, como todo sábado, e ficamos, eu e a Ana, "trancadas" o dia todo no apê. tudo bem que o dia não estava uma beleza, não inspirava um lindo passeio ao ar livre nem nada. mas minha filha está na fase em que qualquer voltinha no quarteirão é uma aventura, cheia de novidades e estímulos interessantes para o seu desenvolvimento. eu podia ter feito qualquer coisa com ela, ido até a padaria comprar pão de queijo, até o Sacolão comprar laranja, até a feira comprar pastel ou até lá embaixo, no prédio mesmo, que ela já teria se sentido "passeada". e eu, menos culpada. mas não. eu não queria. eu estava assumidamente preguiçosa. eu já sou preguiçosa mas, quando assumo, desencana de mim: tartaruga dentro do casco.

à noite ela dormiu e ficamos, os pais culpados, tramando alguma coisa bem legal pra fazer no domingo. não precisava ser nada demais porque a previsão do tempo não era super animadora e porque, pra Ana se divertir um pouco, não precisava de muito. a gente podia ir ao parque e alugar uma bicicleta com cadeirinha pra pedalar com a Ana. ou então, inventei na hora, zoológico! o Carlão se animou e pronto, ficou assim decidido que iríamos. na minha cabeça seria o melhor passeio do mundo. nós três, os animais, a natureza, piquenique, a minha filha sendo apresentada pessoalmente ao fascinante mundo dos bichos... já fazia muito tempo que eu queria ir ao Zoo, mesmo antes de engravidar. quando eu era pequena, a gente fazia sempre excursões com a escola. muita falta de criatividade, o destino era quase sempre o zoológico. mas era sempre legal. e eu nunca mais fui... nem uma garoa fina que ameaçou cair na hora de sair de casa foi capaz de me desanimar. "vamos mesmo? mas é claro que vamos!".

ah, a cidade grande... quantas opções de passeios nós temos, os sortudos habitantes da maior metrópole da América do Sul! mas naquele domingo, metade da cidade de São Paulo, incluindo a família Brito Vianna Assumpção, e mais uns outros visitantes intrometidos, que resolveram sair lá da paz de suas cidadezinhas, resolvemos todos ir ao mesmo lugar. shoppings, parques públicos, teatros, cinemas, festinhas infantis, museus, restaurantes, shows... não, naquele domingo, nada disso era melhor do que o Zoológico de São Paulo.

um mar de carros pra estacionar, um mar de gente pra comprar ingresso e, óbvio, um mar de gente andando dentro do parque, se aglomerando pra tentar ver os bichos que pareciam estar mal-humoradíssimos. e eu, bem rapidamente, comecei a concordar plenamente com eles. e a Ana também. porque ela já estava morrendo de sono, não conseguia nem direcionar o olhar quando a gente mostrava alguma coisa interessante ("olha a zebra pastando!", "olha lá o macaco dormindo com a mãe dele!", "olha as girafinhas comendo, que fofas!"...). dei almoço pra ela, sentada na sarjeta da ruazinha mais tranqüila que conseguimos encontrar. nem um banco desocupado, nem um refúgio tranqüilo...

andamos pra caramba, fizemos um puta exercício físico! empurrar carrinho, carregar sacola, carregar a Ana, controlar a Ana que desembestava a andar sozinha, nas subidas e descidas, no meio daquela multidão...

vimos alguns - poucos - bichos legais. e descobri que a maioria absoluta das pessoas quer mesmo é ver o leão. toda família que a gente cruzava estava no mesmo assunto. um pai: "se continuar fazendo birra, a gente vai embora sem ver o leão!", um filho: "ah, mas eu queria ver o leão!", uma vó: "olha lá, tá chegando a hora de ver o leão, então comporte-se!". eu também gosto do leão, até criei um certo frisson na minha cabeça, pensando na hora de ver o leão (que não colaborou em nada e ficou lá deitado, em cima de um morrinho, virado de costas pra nós; com sorte, vi uma pequena parte das costas do leão). mas eu queria era ver todos, com calma, poder ficar lá observando por mais de um minuto, sem ter que disputar espaço nas grades com milhões de pessoas desesperadas pra ver e tirar fotos de tudo. dois ursos estavam super fofos, brincando na água, bem na hora que a gente passou por eles. vi de relance, quem disse que eu consegui um vãozinho pra olhar? ai, que saco!

resolvemos então ir embora, quando a Ana já estava apresentando sinais claros de que não agüentaria acordada por mais muito tempo. e também, porque não dava pra continuar naquele estresse. eu bem que tentei levar numa boa, mas não deu, não dava. e ela dormiu mesmo, durante o longo caminho que percorremos entre os últimos bichos que vimos (ou tentamos ver) e o carro (que estava a quilômetros de distância).

ai, que decepção! eu fiz planos mirabolantes pra minha filhota se divertir num domingo agradável em família e, no entanto... ela não viu o leão, provavelmente não lembra dos bichos que viu, perdeu a hora da soneca oficial da tarde e se cansou à toa.

nós, os pais culpados, voltamos pra casa, cansados, com fome, pensando que: sim, podemos voltar ao zoológico daqui uns anos, com a Ana mais crescida e - o principal - durante a semana!, e tentando não nos culpar tanto, por termos forçado a barra pra aliviar a culpa inicial, não prevendo que o passeio seria uma furada. mas foi.

e no fim, ficou uma pontinha de culpa. sim, sempre ela...