o rádio tava ligado e eu não conseguia concentrar, sabe? esse chá queimou minha língua, mas tá um frio tão grande que chá quanto mais quente, mais a gente quer mandar logo pra dentro. esfria logo, depois. eu queria escrever, o incenso queimou todo. ficou o cheiro, do Tibet. é diferente do da Índia. mas ficou só ali, em torno de onde tava queimando. a casa, mesmo, não cheira a nada. só quem chega de fora consegue perceber o cheiro de uma casa. quando a gente tá dentro, acha que não tem cheiro. mas tem. o chá já esfriou aqui dentro. precisa mais. eu ia escrever sobre envelhecer. mas no fim acho baboseira. parece de mentira. uma pessoa de vinte e seis anos se mostrar preocupada ou perceptiva quanto ao envelhecimento. hoje em dia é super in valorizar a beleza natural. um pouco baboseira também. eu bem que valorizo a minha. mas botar tudo quanto é defeito, quem não bota? tá um frio que só de olhar pra fora dá mais frio. as árvores que moram aqui na paisagem sempre falam do tempo. do clima, quero dizer. elas são três, mas parecem uma grande, porque as copas se uniram. e elas mudam de cara conforme o dia. sol e céu azul com vento, elas balançam revoltas e felizes, de um verde que tem todos os verdes em um só. dia cinzento, abafado, ar parado, elas são murchas, verde musgo, preguiçosas. dia frio assim que nem hoje eu quase nunca vi, elas estão paradas, meio verdes, meio gelo. e eu nem queria ir lá fora olhar pra cara delas. eu só sei que agora estou mais perto dos trinta do que dos vinte. já disseram que isso é pra se preocupar. a Larissa avisou que quer ser velhinha de cabelo branco e bem comprido. esses dias pensei em hérnia intestinal, cardiologista. ontem enquanto pegava no sono, a Ana falou "mã-mã, mã-mã... ", deu risada e dormiu. mas o frio tá demais mesmo. minha tia falou que é nossa culpa porque mulher sempre acha legal falar que homem fica mais bonito velho, que homem grisalho é um charme ou que entrada na testa é atraente. eu acho mesmo, ué. e que o Bonner ficou mais bonitão com o passar dos anos e a Fátima Bernardes parece que murchou. tanto faz, não gosto deles. culpa de que? de que agora então as mulheres lutam até a morte contra o tempo enquanto o sexo oposto aproveita com deleite o passar dos anos? concordo mas não é tão assim. nem a gente só engana o tempo e nem eles vivem só no deleite. meu secador de cabelo serve pra secar cabelo, roupa quando molha sem querer, a pia quando alaga, tirar cabelo caído e pelinho de barba feita que ficam grudados na pia, e pra me esquentar que tá impossível o frio. um pouco mais de chá também esquenta um pouco. talvez a música ligada até faria bem. não é qualquer um que fica careca, grisalho e vira sex simbol. já as mulheres, dificilmente ficam carecas e dificilmente ficam ridículas quando tingem os cabelos. pronto, ponto pra nós. mas o resto é que é. eu até consigo escrever com música. mas que seja baixa e que não fale muito. tomar cerveja à noite nesse frio parece que dá até gastura, mas depois que você bebe, anestesia. dá pra notar mudança. pelas fotos também, pela cara. quando tá mais perto dos vinte, a gente é linda porque é. e porque tá mais perto dos vinte. beleza despretensiosa fica mais bonita. mas depois é que é. depois a gente só é linda se for mesmo. quando não tem filha pra olhar, dá pra assistir Babel em dvd, no meio da tarde de sábado. e à noite congelar tomando muita cerveja. coisa de fazer com as meninas, todas mais perto dos trinta do que dos vinte. mas passou muito rápido pra gente se convencer assim tão fácil. às vezes a gente fala sobre produtos anti-idade, a importância do filtro solar, do demaquilante, da ginástica facial. mas quem consegue de fato se preocupar muito com vinte e seis anos? eu ia mesmo continuar, mas definitivamente não sou a Adélia Prado escrevendo. pelo menos por enquanto. ela tem cabelos brancos, mas curtos. e é bem bonita, com setenta e poucos anos. e se importa?
Femina
Adélia Prado
A Ivete ligou dizendo-se preocupada com a Ester deprimida demais. Grande novidade, deprimido na minha família, já sabia. Está amolada, diz ela, porque os filhos não deixam mais os meninos pra ela vigiar, achando que está velha, não agüenta mais o batente. Imagina, ela disse, criei os filhos e não agüento dois netos? É claro que não está deprimida por causa disso, está é sofrendo daquela doença ingrata, a de mil sintomas de total gravidade e gravidade nenhuma, porque nem é doença, é menopausa, um 'meno male', afinal. Não tem cura, é democrática, nos põe os olhos levemente aflitos, buscando na ex-colega de escola nossa imagem perdida, a doente sem doença, como me chamou o doutor. Também arrumei agora uma cabeça zonza, a idéia exata de ter um parafuso frouxo, ou, no meu caso, apertado demais, me doem as articulações dos maxilares, como se eu tivesse um cabresto. Várias vezes por dia fico de boca aberta para ter um descanso. Não acho graça em quase nada, em dez minutos esgoto qualquer passeio e quero voltar para o meu quarto. O homeopata - será que escarnecendo de mim? - falou: olha, dona Afonsa, nada de hormônios, envelhecer é isto mesmo, a gente vai se mineralizando, chegou a dizer o que - no pensamento dele - é de uma lógica brutal, que a osteoporose é sinal de progressiva espiritualização. Pior é que concordo: "Tu és pó e em pó te tornarás", somos cinza, caminhamos no inverso sentido de uma fênix. Deveras, dá muita paz não relutar contra o destino, fatalidades repousam. Em minha casa diziam: 'velha saliente: está na hora é de pegar um rosário e ainda caçando indaca de namoro'. Estavam grosseiramente certos, mais certos em todo caso que os marqueteiros da terceira idade. A velhinha dizia na televisão, a velhinha da romaria, temos que sofrer neste mundo, a cara quase infantil, cara de criança, de velha feliz, com mais estradas que um mapa, velha para um pintor, com só uma coisa nova, o seu entrepernas, velhinha que namora e casa outra vez, sabe como? Sabina vai pensar que a estou criticando por tingir o cabelo, não é nada disso, juro que não. Só tento dizer que a alma não envelhece, mas é quase impossível que me entenda. Levar um pensamento até o fim é como colocar n'água um bastão, sua imagem entorta na hora, ainda que ele continue direito na sua concreteza. Afinal, afinal nada, porque nada tem fim, muito menos o sofrimento do mundo.
sábado, 28 de julho de 2007
sexta-feira, 27 de julho de 2007
e eu com isso? (parte I)
sexta-feira passada, meio da tarde, eu parada no farol. uma menina de uns dezessete anos descia do taxi, na porta de um prédio, aqueles mega prédios residenciais que ficam em cima dos comércios, nas ruas mais movimentadas de Pinheiros. que têm portinhas tão espremidas entre as lojas que a gente quase esquece que existe um prédio ali. então, ela tirava as malas do taxi e pagava o motorista, enquanto um menino, mais ou menos da mesma idade (talvez eles tivessem um pouco mais de dezoito anos), ajudava a carregar as coisas pra dentro. ele deve ter vindo morar em São Paulo pra estudar. são namorados, ela mora em outra cidade e veio passar o fim-de-semana. conseguiu sair mais cedo do trabalho (se é que ela trabalha) e chegar no meio do dia da sexta, pra aproveitar umas horas a mais com ele. o farol abriu e eu nem vi se eles deram um beijo na boca e um abraço apertado de saudades. não sei nem se namoram.
outro dia eu esperava uma amiga no bar quando entrou uma mulher loira, meia-idade, toda de preto, vermelha de chorar, nervosa, com um celular na mão. passou como um vulto pela porta e encontrou com as amigas no fundo do bar. abraçou uma delas e desabou em prantos. a amiga consolava enquanto ela chorava e lamentava... a morte de alguém? de quem? ela vinha do velório? do enterro? estava indo pra lá? ou não podia ir porque quem morreu foi o amante? eu tentava assistir às notícias da televisão, mas minha atenção era desviada involuntariamente para a tal moça. não dava pra ouvir o que falavam. minha amiga chegou e eu nunca soube o que aconteceu.
uma vez, verão, praia cheia, eu e uma amiga com as cangas estendidas no meio da muvuca. entre uma conversa nossa e outra, o zum-zum-zum da praia invadia nossos ouvidos naturalmente. no guarda-sol da frente, a menos de um metro de distância, estavam duas meninas, numa conversa inflamada sobre um casal de amigos que tinham acabado de ter uma briga feia. a gente parou completamente de falar e começou a participar da conversa mentalmente, era impossível não fazê-lo. de repente, surge a personagem da briga, a amiga delas, cadeira de praia na mão, puta da vida, falando alto, quase chorando. sentou com elas, contou mais detalhes da discussão. parece que o namorado pegou o carro e saiu irado, ela foi pra praia a pé encontrar com as amigas... e ali ficaram, as três, debatendo o assunto por horas. e ali ficamos, as duas, ouvindo tudo. voltamos pra casa falando sobre a briga. à noite, tomando cerveja, a tal briga foi tema recorrente entre os outros assuntos. no dia seguinte, fomos à praia pensando em sentar perto das mesmas meninas e ficar sabendo algo do desenrolar da história. nunca mais.
quantas histórias já ficaram assim, sem final na minha cabeça, e quantas ainda ficarão...
na gravidez as mulheres sentem muito sono! foi nessa época que eu comecei a não conseguir mais assistir filmes inteiros. a gente passava bastante tempo em casa, alugava dvd's, assistia a filmes na tv a cabo. mas eu dormia em todos! e até hoje, mesmo estando com o sono regulado, eu tenho que fazer um esforço enorme pra conseguir assistir um filme até o fim. mesmo que seja um ótimo filme, que prenda a minha atenção. eu durmo. me irrita um pouco, mas já acostumei. e continuo tentando. às vezes o Carlão consegue assistir e me conta o fim. às vezes eu nem quero saber.
e assim, vão se acumulando mais e mais histórias, ficção e realidade, aos pedaços, que não acabam nunca.
pra que servem? pra onde vão? o que mudam na minha vida?
outro dia eu esperava uma amiga no bar quando entrou uma mulher loira, meia-idade, toda de preto, vermelha de chorar, nervosa, com um celular na mão. passou como um vulto pela porta e encontrou com as amigas no fundo do bar. abraçou uma delas e desabou em prantos. a amiga consolava enquanto ela chorava e lamentava... a morte de alguém? de quem? ela vinha do velório? do enterro? estava indo pra lá? ou não podia ir porque quem morreu foi o amante? eu tentava assistir às notícias da televisão, mas minha atenção era desviada involuntariamente para a tal moça. não dava pra ouvir o que falavam. minha amiga chegou e eu nunca soube o que aconteceu.
uma vez, verão, praia cheia, eu e uma amiga com as cangas estendidas no meio da muvuca. entre uma conversa nossa e outra, o zum-zum-zum da praia invadia nossos ouvidos naturalmente. no guarda-sol da frente, a menos de um metro de distância, estavam duas meninas, numa conversa inflamada sobre um casal de amigos que tinham acabado de ter uma briga feia. a gente parou completamente de falar e começou a participar da conversa mentalmente, era impossível não fazê-lo. de repente, surge a personagem da briga, a amiga delas, cadeira de praia na mão, puta da vida, falando alto, quase chorando. sentou com elas, contou mais detalhes da discussão. parece que o namorado pegou o carro e saiu irado, ela foi pra praia a pé encontrar com as amigas... e ali ficaram, as três, debatendo o assunto por horas. e ali ficamos, as duas, ouvindo tudo. voltamos pra casa falando sobre a briga. à noite, tomando cerveja, a tal briga foi tema recorrente entre os outros assuntos. no dia seguinte, fomos à praia pensando em sentar perto das mesmas meninas e ficar sabendo algo do desenrolar da história. nunca mais.
quantas histórias já ficaram assim, sem final na minha cabeça, e quantas ainda ficarão...
na gravidez as mulheres sentem muito sono! foi nessa época que eu comecei a não conseguir mais assistir filmes inteiros. a gente passava bastante tempo em casa, alugava dvd's, assistia a filmes na tv a cabo. mas eu dormia em todos! e até hoje, mesmo estando com o sono regulado, eu tenho que fazer um esforço enorme pra conseguir assistir um filme até o fim. mesmo que seja um ótimo filme, que prenda a minha atenção. eu durmo. me irrita um pouco, mas já acostumei. e continuo tentando. às vezes o Carlão consegue assistir e me conta o fim. às vezes eu nem quero saber.
e assim, vão se acumulando mais e mais histórias, ficção e realidade, aos pedaços, que não acabam nunca.
pra que servem? pra onde vão? o que mudam na minha vida?
nada
acho que passou mais de uma semana desde que eu postei a última vez. enrolei legal pra escrever. ontem à noite até cheguei ao ridículo de postar o trecho de uma música do Jorge Drexler que ouvi no rádio voltando pra casa, só pra não achar que meu querido blog estava abandonado... (explico: nada ridículos a música tampouco Jorge Drexler, me encantam ambos). mas, calma, ele não estava abandonado, ele sabe esperar. e também sabe agüentar meus "vômitos" de textos repentinos.
agora fico pensando... várias coisas passaram pela minha cabeça, pelos noticiários, pelas minhas conversas ao telefone, no Messenger, em mesas de bar... várias poderiam ter virado posts e reflexões interessantes. ou não. no entanto, passaram. e agora, o que fica?
o primeiro cabelo branco que eu arranquei da minha cabeça, o pinico que eu comprei pra Ana, o acidente de avião e a crise aérea, a encheção de saco acerca dos Jogos Panamericanos, o aniversário da minha mãe, uma briga passageira com o Carlão, a segunda vez que a Ana vai dormir fora de casa, os pedaços de conversas alheias que eu escutei e me fizeram pensar em alguma coisa, a minha falta de inciativa em relação a levar meu carro pra consertar e renovar minha carteira de motorista, um possível novo trabalho que apareceu do nada pra mim, minha incapacidade de assistir filmes inteiros sem dormir desde que fiquei grávida até hoje, minha falta de vontade de ir ao cinema apesar de adorar Cinema, minha vontade indefinida de voltar pra faculdade...
o melhor seria escrever sobre o agora, que é tão ou mais passageiro do que todas essas coisas que passam. ao mesmo tempo, só o agora fica, enquanto o resto segue seu rumo de idas e vindas. as perguntas ficam enquanto as respostas passam. algo assim. ou nada disso.
agora fico pensando... várias coisas passaram pela minha cabeça, pelos noticiários, pelas minhas conversas ao telefone, no Messenger, em mesas de bar... várias poderiam ter virado posts e reflexões interessantes. ou não. no entanto, passaram. e agora, o que fica?
o primeiro cabelo branco que eu arranquei da minha cabeça, o pinico que eu comprei pra Ana, o acidente de avião e a crise aérea, a encheção de saco acerca dos Jogos Panamericanos, o aniversário da minha mãe, uma briga passageira com o Carlão, a segunda vez que a Ana vai dormir fora de casa, os pedaços de conversas alheias que eu escutei e me fizeram pensar em alguma coisa, a minha falta de inciativa em relação a levar meu carro pra consertar e renovar minha carteira de motorista, um possível novo trabalho que apareceu do nada pra mim, minha incapacidade de assistir filmes inteiros sem dormir desde que fiquei grávida até hoje, minha falta de vontade de ir ao cinema apesar de adorar Cinema, minha vontade indefinida de voltar pra faculdade...
o melhor seria escrever sobre o agora, que é tão ou mais passageiro do que todas essas coisas que passam. ao mesmo tempo, só o agora fica, enquanto o resto segue seu rumo de idas e vindas. as perguntas ficam enquanto as respostas passam. algo assim. ou nada disso.
quinta-feira, 26 de julho de 2007
calma
todo está en calma
deja que el beso dure
deja que el tiempo cure
deja que el alma
tenga la misma edad que la edad del cielo
Jorge Drexler
deja que el beso dure
deja que el tiempo cure
deja que el alma
tenga la misma edad que la edad del cielo
Jorge Drexler
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